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EUA rejeitam proposta da Rússia e dizem que guerra na Ucrânia depende de Putin

por Sandra Carvalho

Secretário Blinken afirma estar aberto para diálogo; antes, Moscou prometera retaliar o Ocidente

Os Estados Unidos rejeitaram formalmente as propostas russas para tentar solucionar a crise com a Ucrânia nos termos desejados por Vladimir Putin. Afirmam que guerra ou paz no país europeu agora dependem da reação do russo e que estão “preparados de qualquer jeito”.

As afirmações foram feitas pelo secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, responsável pela diplomacia do país, em entrevista em Washington. Ao mesmo tempo, conversas entre Rússia, Ucrânia, Alemanha e França em Paris resultaram apenas no acerto para uma nova reunião, em Berlim.

Blinken não detalhou o documento entregue a seu colega russo, Serguei Lavrov, porque confia em “conversas confidenciais”. Em um sinal de que diz temer um conflito iminente, a embaixada americana em Kiev pediu que todos seus cidadãos deixem o país.

Uma bateria antiaérea Strela-10 da Ucrânia durante treinamento na região de Volin
Uma bateria antiaérea Strela-10 da Ucrânia durante treinamento na região de Volin – Comando das Forças Terrestres Ucranianas/via Reuters

A resposta americana era previsível e manteve a disposição de conversar. “Estamos abertos ao diálogo”, disse Blinken. Depois, sem detalhar, ele falou sobre as demandas apresentadas por escrito por Putin:

  • 1) Expansão da Otan. O Kremlin quer a volta da aliança militar a seu tamanho antes da absorção de membros ex-comunistas, a partir de 1999. Blinken disse não.
  • 2) Entrada da Ucrânia. Putin queria o compromisso de que a aliança nunca chegaria às suas portas na grande fronteira com os ucranianos. Blinken disse não e ressaltou que não abre mão da soberania territorial de Kiev.
  • 3) Outros temas. Aqui está a porta de saída do imbróglio, se é que existe com exercícios militares envolvendo milhares de russos em três lados da Ucrânia. Blinken disse estar aberto a mais diálogos e citou temas como desarmamento nuclear e monitoramento de exercícios militares mútuos.

O problema é que tudo isso já havia sido colocado na mesa antes, em três semanas de negociações diversas. O secretário americano disse que deverá falar novamente com Lavrov, assim que o chanceler conversar com Putin sobre o óbvio: o impasse segue.

Talvez mais importante, Blinken insistiu que haverá conversas com reciprocidade “se a Rússia desescalar suas forças” em torno da Ucrânia —de 100 mil a 175 mil soldados mobilizados desde novembro, insuficiente para uma invasão total, mas adequado para ações como a eventual anexação do Donbass.

A região no leste ucraniano está no centro da crise. Em 2014, Putin anexou a Crimeira e ajudou rebeldes pró-Rússia de lá numa guerra civil que já matou 14 mil pessoas porque o governo que o apoiava em Kiev foi derrubado. Para o Kremlin, a Ucrânia e o resto de seu entorno têm de ser neutros ou aliados —como eram na União Soviética ou no Império Russo. Politicamente, além de tudo, uma Kiev melhorada com amplo apoio ocidental poderia ser vendida aos russos como exemplo do que fazer com seu próprio país.

Por fim, Putin compartilha a noção da elite russa de que a Ucrânia não é bem um país, mas um pedaço da Rússia. Na Belarus, que compartilha com os dois vizinhos laços étnicos, linguísticos e culturais, o processo de fusão está acelerado devido ao apoio do Kremlin à repressão da ditadura contra a oposição.

Não houve resposta imediata de Moscou. Em Paris, um encontro de oito horas entre representantes russos, ucranianos, alemães e franceses não chegou a conclusão, mas uma nova reunião foi marcada para daqui a duas semanas, em Berlim. Tempo ganho, apesar das pressões russas nas fronteiras. “Não foram conversas fáceis”, disse Dmitri Kozak, o enviado de Moscou.

O tom do Kremlin, contudo, tinha sido dado por Lavrov em discurso horas antes na Duma, a Casa baixa do Parlamento russo. “Se o Ocidente continuar seu curso agressivo, Moscou irá tomar as medidas retaliatórias necessárias”, afirmou o chanceler. “Nós não vamos deixar nossas propostas serem afogadas em discussões sem fim.”

E Blinken, repetindo o que já vinha sendo falado antes, basicamente propôs uma discussão sem fim. Além disso, desfiou o rosário de armamentos entregues para os ucranianos recentemente, como sistemas antitanque Javelin, desenhados para enfrentar blindados russos.

Os EUA, afirmou ele, estão comprometidos em ajudar Kiev a se defender. Na prática, isso poderia aumentar a fatura para Putin, mas não impediria uma vitória ao menos inicial de Moscou —ainda que ocupar seja uma coisa, como disse Maquiavel, e manter território, outra.

No Kremlin, o porta-voz Dmitri Peskov disse que a ameaça do governo de Joe Biden de aplicar sanções contra altos oficiais russos, talvez até Putin, “politicamente, não é dolorosa, é destrutiva”, lembrando que o efeito prático seria nulo, já que autoridades no país não podem ter bens fora —oficialmente, claro.

Uma chave para o futuro da crise, se não descambar para um conflito armado, já que para Putin a simples retirada não é uma opção palatável, está no caráter confidencial dado pelos EUA ao documento e às próximas rodadas de conversa. Pode haver acomodações diversas.

Putin pode bater o pé e, em vez de agir militarmente como sempre disse que não faria, aplicar medidas outras: abrir uma base permanente em Belarus, talvez com armas nucleares, explorar o envio de tropas ou armas para seus aliados no quintal dos EUA, Cuba e Venezuela.

Essas seriam repostas “técnico-militares”, como diz o jargão russo. Enquanto isso, confidencialmente, poderia negociar algum tipo de moratória de entrada de novos membros orientais na Otan, algo já vetado na prática porque tanto Ucrânia como a Geórgia têm conflitos territoriais ativos.

O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, deu uma estocada em Putin após a fala de Blinken. Disse à CNN elogiar a disposição dos EUA para o diálogo, mas lembrou que a Rússia deveria retirar suas tropas de solo ucraniano, georgiano e moldavo —onde apoia um encrave separatista chamado Trandsnístria.

O mesmo Stoltenberg, por outro lado, afirmou que Rússia e Otan deveriam restabelecer laços diplomáticos para abrir canais de negociação, o que pode ser vendido em Moscou como uma vitória, ao menos ao público doméstico.

Radicais de lado a lado deram a cara. O líder do Rússia Unida, o partido de sustentação de Putin no Parlamento, pediu que o Kremlin forneça armas para os rebeldes do Donbass, por exemplo. No mais, os EUA mantiveram as ameaças de sanções econômicas caso a Rússia resolva invadir o vizinho. Nada de novo, e a resistência do Kremlin desde 2014 fez aumentar o questionamento da eficácia das medidas.

Politicamente, Putin até aqui conseguiu um objetivo secundário na crise, que é o de expor as divisões internas dos membros europeus da Otan. A Alemanha, maior cliente do gás russo na Europa, tem adotado uma linha ambígua na crise. Com um governo recém-eleito, o país viu o comandante de sua Marinha ter de se demitir por dizer que Putin era uma força respeitável e que a Crimeia nunca mais voltaria à Ucrânia.

No Parlamento Europeu, uma sessão nesta quarta-feira questionou, de acordo com relatos, a instalação de uma missão de treinamento militar da União Europeia na Ucrânia, liderada pela Alemanha. Berlim, que já fizera algo semelhante em países africanos, ainda não assumiu a tarefa.

Ele ficou pronto em setembro e, quando operar, poderá tirar boa parte do fluxo do produto que hoje passa pela Ucrânia —deixando US$ 2 bilhões anuais de pedágio. Blinken queixou-se da transformação da commodity em arma de guerra e voltou a prometer opções de fornecimento à Europa.

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