As vacinas contra a covid-19 trouxeram de volta a esperança de dias melhores, livres da ameaça representada pelo coronavírus. Dias como antigamente, quando era possível sair nas ruas sem máscaras, abraçar e beijar pessoas queridas, além de se reunir com familiares e amigos. Só que essa esperança parece não ser suficiente para superar a politização da pandemia e a ignorância tem ganhado espaço.
Profissionais da saúde que estão trabalhando na campanha “Vacina Cuiabá”, relataram nesta quarta-feira (11), à reportagem do Estadão Mato Grosso, que estão sofrendo humilhação e agressão verbal a hora da vacinação. Os motivos são os mais variados: pessoas que não aceitam receber a vacina que está disponível para aplicação no dia, cidadãos que acham que não foram vacinados e pessoas que vão aos polos sem a documentação necessária.
Vera Lucia Ferreira, coordenadora de acolhimento e registro do Polo Senai, localizado no bairro do Porto, em Cuiabá, conta que as pessoas estão querendo escolher a vacina que irão tomar. E se o imunizante é a Coronavac, alvo de várias campanhas de desinformação na internet, as agressões e xingamentos são mais frequentes.
“Tem sido recorrente. As pessoas se exaltam quando descobrem a vacina que vão tomar: se é a da Pfizer, corre tudo bem, é uma maravilha, mas se não é… No dia que estou vacinando com a Coronavac, as pessoas ficam muito revoltadas e nós não entendemos o porquê. A Coronavac é uma excelente vacina, os últimos estudos dela foram excelentes. Todos os trabalhadores que estão trabalhando na campanha de vacinação tomaram ela. Não tem motivo para tanta revolta e rejeição”, desabafou.
“O Sesi Papa é um dos locais onde mais as pessoas chegam nervosas, principalmente quando tem bastante gente na fila para ser vacinada. A coordenadora de lá precisou fazer boletim de ocorrência algumas vezes para se resguardar”, completou.
Uma enfermeira, que preferiu não se identificar, passou por situações desagradáveis duas vezes seguidas e contou que chegou a chorar diante da humilhação a que foi submetida. Ela contou um pouco do que tem passado nos últimos dias.
“Apliquei uma vacina em uma pessoa e ela saiu reclamando que iria fazer uma denúncia na Ouvidoria porque ela não sentiu dor e nem saiu sangue. Logo em seguida, apliquei a vacina em outra pessoa, que disse que ia fazer uma reclamação também na Ouvidoria porque sentiu dor”, contou.
Vera recordou o caso de uma mulher que reclamou muito quando soube que receberia uma vacina de uma marca diferente da que suas amigas receberam e passou a resistir à vacinação. Após reclamar muito na tentativa de trocar a marca da vacina, foi embora do polo.
“Nem todas as pessoas vão responder bem a nenhum tipo da vacina. O fato de você tomar uma vacina e realizar um exame e ele não ter dado o esperado, não significa que você não esteja imune, até porque a vacina é para fazer um reconhecimento no teu corpo, para que quando você tiver contato com o vírus, o corpo já tenha uma resposta para ele. Portanto, o exame não é a forma mais eficaz de saber se você é imune ao vírus”, explicou.
Outra situação foi registrada no polo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) na última semana. “Solicitamos o QR Code para o rapaz, mas ele não tinha. Explicamos, com a maior educação, sobre a necessidade, mas ele continuou insistindo. No final, passou a nos agredir verbalmente. É humilhante, ainda mais sabendo que a pessoa está errada”, conta Welignem Leite, coordenadora do polo de vacinação da UFMT.
“Não consigo entender essas pessoas”
Por sorte, a falta de respeito não é uma regra. Enquanto aguardava na fila de vacinação, o vendedor Jefferson Marques Costa, 36, elogiou o trabalho realizado no polo de vacinação. Ele conta que foi bem atendido por todos e não vê motivos para tanta reclamação. “Fui muito bem atendido. Tudo muito rápido e as meninas foram muito simpáticas”.
A auxiliar contábil Eliana da Silva Ribeiro, 37, reforça a fala de Jefferson. “Fui muito bem atendida aqui no polo, desde o momento em que cheguei até agora, no repouso pós-vacina. Não consigo entender essas pessoas que destratam e maltratam as outras. Demoramos tanto para estar aqui e quando chegam ficam querendo escolher vacina. Não tem motivo para falta de respeito com o próximo”, disse.
Vera pede que a população tenha ciência de que é preciso ter respeito com os mais de 300 trabalhadores que estão na luta para imunizar a população cuiabana, muitos deles trabalhando em condições extenuantes.
“Nós pedimos, encarecidamente, que as pessoas entendam que estamos aqui para trabalhar, para imunizar toda a população. Entendemos que muita gente chega ansiosa para ser vacinada, mas nós precisamos seguir os trâmites para conseguirmos ter uma organização. Nós trabalhadores da vacinação também somos cidadãos iguais aos outros, também temos família e ficamos cansados, como qualquer pessoa”, finalizou.
PENALIDADE – O desacato a funcionário público no exercício da função ou em razão dela é crime previsto no artigo 331 do Código Penal, com detenção de seis meses a dois anos, ou multa.
Fonte: Jornal Estadão Mato Grosso
