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Produtores de leite ganham, mas não estão lucrando

por Da Redacao

Papeis se invertem no final da entressafra do leite e indústria paga mais, só que o valor ainda não cobre os prejuízos causados pelo clima

A seca e o frio intenso devem mudar a dinâmica de preço, oferta e demanda do leite na reta final da entressafra. Pesquisa ainda em andamento realizada pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) acompanha a inversão de lugares entre produtores e indústria. Segundo os analistas, o cenário está favorável para alta do preço do leite pago ao produtor no mês de agosto, que pode chegar a 3%.

A movimentação é considerada atípica para o período, pois acontece nos meses finais da entressafra do setor (julho a setembro), justamente o período em que a indústria de lácteos costuma contar com uma estabilização de preços.

“O terceiro trimestre é um período delicado para os agentes do setor lácteo, que precisam alinhar suas expectativas, pois os fatores de oferta, em transição, alteram o equilíbrio com a demanda. E, dependendo dos contextos econômico e climático, esse cenário pode ficar ainda mais instável. E foi o que aconteceu neste ano”, descreve o boletim do Cepea.

O clima atípico tem prejudicado também a captação de leite nos campos, o que afeta diretamente as expectativas sazonais da indústria. Em tempos normais, havia um volume maior de leite na praça quando faltava quase um mês do fim da entressafra. Agora, a situação é diferente.

“O clima adverso e as recentes geadas intensificaram a restrição de oferta entre julho e agosto, aumentando a insegurança dos agentes em relação aos volumes de captação. As indústrias, focadas em manter seus marketshares [presença nos mercados], acirraram a competição pela compra de matéria-prima”, explicam os especialistas.

A valorização do leite tem superado recordes neste ano. O preço do leite captado em junho e pago ao produtor em julho atingiu R$ 2,31 por litro na “Média Brasil” líquida. Segundo o centro de pesquisa, esse valor é um recorde na série histórica do Cepea, iniciada em 2005.

Em Mato Grosso, os últimos dados do mercado de lácteos também mostram queda na produção e elevação do preço pago ao produtor. Conforme o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), na variação mensal de maio para junho, o índice de captação do leite no estado caiu mais de 9%. Ao mesmo tempo, os preços pagos ao produtor subiram 8,13%, atingindo R$ 2,02 por litro.

Com esse resultado, a atividade em Mato Grosso registrou sua 4ª valorização mensal consecutiva a partir de março. O valor pago ao produtor quase dobrou (alta de 85,3%) na comparação com o mesmo período em 2019, antes da pandemia.

GANHA, MAS NÃO LEVA – Diante dessa mudança de cenário, estima-se que a indústria não conseguirá impor queda de preços no campo. Os produtores até estão recebendo mais por litro de leite, mas isso não significa aumento no lucro, já que boa parte do valor pago pela indústria será usado cobrir o aumento no custo de produção.

“A elevação dos preços no campo não tem sido suficiente para garantir aumento de rentabilidade, tendo em vista a forte pressão dos custos, especialmente neste momento em que o clima desfavorece a atividade leiteira. De modo geral, as geadas prejudicaram a alimentação do rebanho, visto que causaram o crestamento – queima da parte vegetativa – das pastagens e diminuíram consideravelmente a qualidade da alimentação volumosa, que já vinha limitada devido ao tempo seco”, observa.

Produtores também relatam que as geadas causaram danos à aveia e forragem de inverno. Com isso, a saída é recorrer à suplementação animal de concentrados do milho e farelo de soja, insumos que também estão muito valorizados.

Preço recua para consumidores – Pesquisas realizadas pelo Cepea, com apoio da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), apontam recuo nos preços finais dos derivados lácteos em julho. A pesquisa observou os preços negociados no atacado de São Paulo, que apresentaram reduções nos preços do leite longa vida (2,4%), do leite em pó de 400g (1,7%) e do queijo muçarela (3,8%), na comparação com os registros de junho de 2021.

“Com cotações elevadas e com o menor poder de compra do consumidor, a demanda por lácteos se desaqueceu”, explicam os pesquisadores do Cepea.

Fonte: Jornal Estadão Mato Grosso

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