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Que eleição, Mato Grosso!

por Da Redacao

Caique Loureiro

Ao longo da eleição, senti um movimento muito diferente das eleições anteriores: o distanciamento dos eleitores em relação ao processo eleitoral estadual. A disputa pelo Governo, Senado, Câmara e Assembleia estava distante do povo; a única eleição que realmente existia nas discussões fora das bolhas era a presidencial. E, claro, com um inimigo da vez: o STF.

A eleição avançava e o eleitor parecia não se interessar pelo processo estadual. Enquanto isso, deputados faziam “grandes” agendas, com pessoas pagas para bater palma, colar praguinha e distribuir abraços. E tentavam uma estratégia de montar uma grande pirâmide para o voto chegar à urna: fechar com prefeitos, vereadores, suplentes, lideranças e, de alguma forma, fazer essa estrutura desembocar no eleitor. Doce ilusão!

Assim se passaram os 45 dias de campanha. E, quando faltavam apenas dois dias para a eleição, as pesquisas ainda mostravam um número absurdo de indecisos para deputados estaduais e federais. A eleição estava sendo pautada integralmente pela disputa presidencial. E, então, chegamos às urnas e aos seus resultados. Vou apresentar uma análise por cargo em disputa.

Vamos analisar a eleição para governador: Pivetta x Wellington.

De um lado, Otaviano Pivetta tinha como principal trunfo a força da máquina estadual e a boa aprovação construída ao longo dos últimos 7 anos, ao lado de Mauro Mendes. Do outro, Wellington Fagundes tinha como principal ativo o apoio de Flávio Bolsonaro.

Pivetta foi construindo sua estratégia com maestria. Certo por linhas tortas (após troca de Fábio Garcia), trouxe Gisela Simona, uma mulher cuiabana, com ótima reputação, para ser sua vice. Suavizou sua imagem e buscou ampliar sua aceitação na Baixada Cuiabana. Também conseguiu reunir mais de 130 dos 142 prefeitos em torno do seu projeto. E a última grande tacada foi trazer, pouco a pouco, lideranças do PL identificadas com o bolsonarismo para o seu lado. Cláudio Ferreira, Flávia Moretti, Abilio, Zé Medeiros e tantos outros foram se aproximando.

Na prática, Pivetta conseguiu potencializar seu ponto forte e mexer justamente na base que sustentava as chances de Wellington.

E Wellington, por outro lado, acumulou movimentos que acabaram complicando sua própria estratégia. Um deles foi trazer a nora, Janaina Riva, para dentro do projeto com o PL, sem consentimento de todos. Na sequência de erros, Janaina acabou sendo filmada pedindo votos para Fávaro, arqui-inimigo da direita. O cristal, que já estava trincado, virou pó.

O resultado foi uma vitória histórica de Pivetta, com o maior número de votos já registrados para um governador eleito em Mato Grosso.

Agora vamos ao Senado.

Essa, para mim, não teve surpresa. Inclusive, em um artigo que escrevi no ano passado, já havia levantado uma possibilidade muito parecida com o que acabou acontecendo.

O governador eleito sempre puxa consigo seu principal candidato ao Senado, isso sempre aconteceu em Mato Grosso. Neste ano, o eleito foi Mauro Mendes, um governador com excelentes números de aprovação, e nas urnas obteve uma explosão de votos, sem surpresa. A segunda vaga ficaria aberta para alguém que conseguisse vir lá de baixo, decolar e surfar na onda do momento.

E quem pegou a prancha foi Zé Medeiros. Ele vinha aparecendo entre quarto e quinto lugar nas pesquisas e, de repente, encontrou a onda nacional extremamente favorável: o sentimento de oposição ao STF. Medeiros surfou nessa onda e deixou os demais para trás.

É importante lembrar que Mauro Mendes e Pivetta também souberam dialogar com essa mesma onda da ideologia de direita. No fim, a eleição para o Senado acabou sendo fortemente influenciada pelo ambiente nacional.

Chegamos à parte mais interessante: os deputados.

Agora vamos para aquilo que mais me intrigava: as eleições proporcionais para deputados estaduais e federais. No marketing político, costumo classificar os perfis de deputados em cinco grupos: ideológicos; temáticos; geográficos; herdeiros; midiáticos.

Historicamente, sempre houve um certo equilíbrio entre esses perfis. Mas minha intuição dizia que os ventos da eleição presidencial poderiam provocar grandes surpresas nas vagas de deputados estaduais. E provocaram. A eleição proporcional estadual foi fortemente atravessada pela ideologia.

As herdeiras, sem ideologia, sentiram o peso da onda. Um dos resultados mais surpreendentes foi o desempenho deles. Rafaela Fávaro e Jéssica Riva eram nomes que, olhando para o histórico e para as estruturas que carregavam, não pareciam candidatas que perderiam.

Já as herdeiras políticas da identificação ideológica tiveram outro desempenho. É o caso de Samantha e Alessandra. As primeiras-damas da direita se beneficiaram do pleito nacional.

Os geográficos resistiram; candidatos de forte base geográfica conseguiram se segurar. Aqui ficou uma lição: não se aluga base eleitoral de véspera, é um trabalho contínuo de médio e longo prazo. Eleição não se financia à base de líderes, se conquista com trabalho e criação de posicionamento, através de discurso único e muita dedicação à sua região.

E alguns nomes de carreira política sofreram derrotas que, antes de abrirem as urnas, seriam difíceis de imaginar. Botelho, Júlio Campos, Juca do Guaraná, Paulo Araújo e Elizeu Nascimento são exemplos dessa mudança no tabuleiro.

Também chamou atenção o desempenho de alguns secretários estaduais. Alan Porto, Gilberto Figueiredo e Alan Kardec, por exemplo, não conseguiram transformar a visibilidade e a estrutura que tiveram em vitória nas urnas.

Foi uma eleição em que a ideologia ganhou um espaço ainda maior, e o pragmatismo político não encontrou espaço. Nas 08 vagas de federais, 05 foram conquistas ideológicas: Coronel Fernanda, Rosa Neide, Coronel Assis, Thiago Boava, Coronel Roveri; uma geográfica: Juarez Costa; e duas com a força da estrutura e visibilidade do governo do estado: Fábio Garcia e Virginia Mendes. A única surpresa foi o PSD não ter conquistado a vaga, pois o partido tinha dois nomes fortes, Emanuelzinho e Irajá Lacerda, ambos com mais de 50 mil votos, superior inclusive a deputado eleito.

O segredo era estar alinhado à guerra nacional ou ter construído base e discurso único forte. Não adiantou estar num estágio morno, tinha que ferver ideologicamente. Não adiantou investir de última hora em lideranças, acreditando em transferência automática de votos. Essa eleição nos trouxe grandes lições.

Caíque Loureiro, publicitário, mestre em Marketing, professor de graduação e pós-graduação. Atua como marqueteiro político.

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