O exame ginecológico de citologia, conhecido como Papanicolau, é uma das principais estratégias assim como o teste molecular para detecção do DNA do HPV para o achado precoce de lesões precursoras do câncer do colo do útero, muitas vezes antes mesmo do surgimento de sintomas. A identificação dessas alterações em fases iniciais é fundamental para a redução da mortalidade, especialmente considerando que o câncer do colo do útero ainda figura entre as principais causas de morte por câncer em mulheres jovens no Brasil.
Durante muitos anos o exame Papanicolau salvou muitas vidas por detectar o câncer de colo uterino em suas fases pré-cancerosas, evitando-se assim a transformação maligna. No entanto, nos últimos anos, diversos estudos científicos vêm demonstrando que o teste de DNA do HPV (isto é, o teste que detecta o DNA do vírus causador do tumor) é muito mais sensível na detecção das lesões pré-malignas e malignas, em cerca de 35% a 40%, quando comparado à citologia.
O teste citopatológico para a detecção do HPV, popularmente conhecido como papanicolau, será gradualmente substituído, no Sistema Único de Saúde, pelo exame molecular de DNA-HPV. O teste molecular é recomendado como exame primário para detecção do HPV pela Organização Mundial da Saúde (OMS) por ser mais eficaz na redução de casos de câncer e óbitos. Dessa maneira, diversas entidades internacionais, bem como o Brasil, vêm recomendando sua utilização. Entretanto, nas localidades onde este teste de HPV ainda não está disponível recomenda-se a coleta da citologia.
A mudança faz parte das novas diretrizes para o diagnóstico do câncer do colo do útero, apresentadas pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca). As novas diretrizes incluem orientações para a autocoleta do material para teste em populações de difícil acesso ou culturalmente avessas ao exame feito por profissional de saúde. As orientações já foram aprovadas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde e pela Comissão de Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (Conitec).
Papanicolau é um exame com sólido embasamento científico e papel essencial no cuidado à saúde da mulher. O exame tem fundamento e é um exame importante para a detecção precoce do câncer do colo do útero. Ainda que algumas mulheres possam se sentir desconfortáveis com o exame, vale explicar que o teste molecular para detecção do DNA do HPV – que já está disponível no Brasil e vem sendo implementado de forma gradual tanto no SUS quanto na rede privada utiliza a mesma forma de coleta do Papanicolau. O benefício destes testes será sempre maior que qualquer desconforto.
A FEBRASGO( Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) destaca ainda que o rastreamento adequado, aliado à vacinação contra o HPV e ao acompanhamento regular com profissionais de saúde, é essencial para a prevenção e o diagnóstico precoce das doenças ginecológicas. O câncer do colo do útero é um dos poucos tipos de câncer cuja causa é bem estabelecida: a infecção pelo vírus HPV. Dessa forma, a vacinação contra este vírus, que previne o contágio, aliada ao rastreamento precoce das alterações provocadas pelo vírus por meio da citologia ou do teste de HPV tem potencial para, em um futuro próximo, reduzir significativamente a incidência dessa doença como problema de saúde pública.
Dra. Giovana Fortunato é ginecologista e obstetra, especialista em Endometriose e Infertilidade, professora da UFMT/HUJM, em Cuiabá.
