Cuiabá (MT) – Uma ação de Natal realizada em Cuiabá transformou a entrega de presentes em um momento de reflexão profunda sobre infância, desigualdade social e o papel dos projetos de inclusão. Articulada por Valteir Vieira Cabral, o Seu Cabral, conhecido por interpretar o Papai Noel há mais de 15 anos no Shopping Três Américas, a iniciativa levou crianças de projetos sociais ligados à capoeira para um dia de lazer, cultura e acolhimento, incluindo uma experiência inédita para muitas delas: a primeira ida ao cinema.
A ação contou com a parceria do Shopping Três Américas, do Cinema do Shopping Três Américas, da Sala Eco Cidadania e do Itec Brasil, beneficiando crianças atendidas por projetos sociais de capoeira em diferentes comunidades da capital. Mais do que um passeio, a iniciativa teve como objetivo ampliar referências, fortalecer vínculos e mostrar que esses espaços também pertencem a essas crianças.

Antes do Natal, os alunos escreveram cartinhas com pedidos ao Papai Noel, que foram adotadas com o apoio da Polícia Civil de Mato Grosso. As cartas revelaram desejos simples e cheios de significado, como livros, material escolar, mochilas e instrumentos de capoeira, demonstrando a vontade de aprender, pertencer e construir um futuro diferente. Um dos alunos realizou o sonho de ganhar um berimbau e um pandeiro, símbolos de ancestralidade e identidade cultural. Arthur Isidoro, conhecido como Tampinha, pediu livros para leitura e teve seu pedido atendido. Já Enzo Luiz, o Espeto, solicitou mochila e material escolar para estudar, reforçando o quanto o acesso à educação ainda é um desejo básico para muitas crianças.
No entanto, uma cartinha em especial trouxe uma reflexão dura e necessária: o desenho de um fuzil. O pedido, embora não tenha sido atendido literalmente, marcou profundamente todos os envolvidos na ação por revelar referências que fazem parte do cotidiano de muitas crianças em comunidades vulneráveis. Longe de ser ignorado, o desenho foi compreendido como um alerta social e um chamado à responsabilidade coletiva.

Segundo Seu Cabral, a iniciativa vai além do simbolismo do Natal. “Quando uma criança pede um livro, um caderno ou um instrumento de capoeira, ela está pedindo oportunidade. E quando aparece um pedido como esse desenho, ele não deve ser julgado, mas entendido. É exatamente aí que os projetos sociais mostram o quanto são necessários: para mudar referências, abrir caminhos e oferecer outras possibilidades de futuro”, afirmou.
Para o professor João Paulo de Carvalho, conhecido como Instrutor Tucumã, a capoeira é uma ferramenta poderosa de transformação social. Ele destaca que a prática vai muito além da atividade física, contribuindo para a disciplina, o fortalecimento da autoestima, o desenvolvimento físico, mental e emocional, além de promover pertencimento, identidade e acesso à história e à cultura afro-brasileira. “A partir do momento em que a criança entra em um projeto social, ela passa a enxergar outras possibilidades de vida”, ressalta.

Projetos como a Ama Capoeira, a APJ, além de iniciativas do Itec Brasil e da Sala Eco Cidadania, cumprem um papel essencial ao substituir referências de violência por educação, cultura e convivência comunitária. Essas ações contribuem diretamente para o fortalecimento dos vínculos comunitários e para a permanência das crianças em ambientes de aprendizado e proteção.
A realização da ação contou com o envolvimento direto de educadores e lideranças comunitárias que atuam diariamente nos territórios, entre eles o professor Jev, o instrutor Tucumã, a graduada Branca, o professor Spirro, além de outros profissionais ligados aos projetos sociais da capoeira em Cuiabá. São esses educadores que garantem a continuidade das atividades, organizam as ações e mantêm as crianças inseridas nos projetos.
Como parte da programação, as crianças participaram de uma sessão de cinema e também se divertiram no Planet Park. A experiência representou mais do que lazer: simbolizou a quebra de barreiras sociais e o fortalecimento do sentimento de pertencimento. Foram beneficiados alunos de projetos localizados em bairros como Coophamil, Pedra 90, São João Del Rei, Osmar Cabral, entre outras comunidades de Cuiabá.

Mais do que uma ação pontual, a iniciativa evidenciou o impacto da união entre projetos sociais, instituições, empresas e pessoas comprometidas com a infância. Ao oferecer vivências, acolhimento e novas referências, a ação se consolidou como um gesto concreto de cuidado e um investimento direto no futuro de crianças que, quando apoiadas, têm a oportunidade real de romper ciclos de exclusão e construir novos caminhos.
Combate ao trabalho infantil
Como desdobramento dessa articulação em rede, a iniciativa também dialoga com o projeto Crescer com Direitos,, projeto que atua na prevenção e enfrentamento do trabalho infantil por meio de ações educativas, culturais e de fortalecimento de vínculos familiares e comunitários por meio da comunicação, uma inicaitiva do Fórum Estadual de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (Fepeti-MT). A parceria reforça o entendimento de que oferecer acesso à cultura, ao esporte, ao lazer e à educação é uma das formas mais eficazes de proteger crianças e adolescentes, ampliando oportunidades e reduzindo riscos sociais.
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