Reportagem – Sandra Carvalho
O Programa Ser Família Habitação Faixa Zero, uma das prioridades do Governo de Mato Grosso, já entregou 11 residenciais no estado, totalizando 558 famílias contempladas com a casa própria. A iniciativa soma R$ 334,6 milhões em investimentos e conta com a adesão de 73 municípios.
Idalice Conceição Barra dos Santos, 52 anos, mãe do pequeno Antônio Pedro — diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 3, é uma das mais novas moradoras do Residencial Nascente do Rio Paraguai, em Alto Paraguai.
No dia 26 de julho de 2025, quando recebeu a chave do seu novo lar, Idalice não esperou sequer amanhecer completamente: “No outro dia eu já mudei”, conta. Após anos vivendo de aluguel ou “de favor na casa dos outros”, como ela mesma descreve, a mãe solo finalmente podia atravessar uma porta que era sua, uma porta que não se fechava ao fim do mês, quando o dinheiro mal dava para escolher entre aluguel, luz ou comida.
Idalice e Antônio Predro: O sorriso traduzindo a alegria de morar na casa própria. Foto Arquivo Pessoal
A casa, entregue pela primeira-dama de Mato Grosso e idealizadora do Ser Família Habitação, Virgínia Mendes, não significou apenas um endereço novo. Representou qualidade de vida, estabilidade e possibilidade de futuro.
Idalice carrega na voz uma mistura de alívio e de um cansaço antigo, acumulado ao longo de anos sobrevivendo sem conseguir planejar o amanhã. “Eu vivi muito tempo de aluguel. Muito mesmo. Quando não era aluguel, era casa de favor. E sempre fui eu que paguei tudo, mesmo quando era casada”, relembra.
A rotina apertada se agravava por causa do filho, já que o nível 3 do TEA exige supervisão e apoio substanciais. Idalice não pode trabalhar com carteira assinada; sua vida, como diz, é “inteira dedicada a ele”. Entre terapias, crises e dias de agitação ou retração, manter emprego formal era impossível, e o aluguel engolia qualquer esperança de estabilidade.
“Chegou um tempo em que eu já não estava aguentando mais”, confessa. “É tão difícil viver de aluguel com uma criança especial… Tem dia que ele não quer ver ninguém; tem dia que está muito agitado; tem dia que não quer sair nem do quarto.”
No ambiente apertado onde viviam, qualquer som, visita inesperada ou mudança de rotina se tornava gatilho. Hoje, a realidade é outra.
“Agora ele tem o espaço dele. Abre a janela, fecha a porta, fica no mundo dele. Ele fica tranquilo. Melhorou muito.”
A casa nova trouxe paz para o filho e, sobretudo, descanso para a mãe. “A gente dorme e não precisa se preocupar com aluguel. Antes, todo mês eu pensava: pago o aluguel, pago a luz ou compro comida?”
Idalice é categórica ao falar do processo: “Eles escolhem quem realmente precisa. Teve processo, teve avaliação. Eles dão a casa para quem vive de aluguel, para quem está na luta.”
Hoje, sozinha com o filho, ela vive pela primeira vez em um lar que não vacila com o tempo. “É uma casa agradável, confortável. Agora é nossa.”
Histórias como a de Idalice se multiplicam em dezenas de municípios de Mato Grosso desde 2021, quando o Governo do Estado criou o Ser Família Habitação – Faixa Zero com o propósito de oferecer moradia digna a famílias em extrema vulnerabilidade. Enquanto as chaves mudam vidas, o programa também movimenta a economia local, gera emprego e fortalece políticas permanentes de assistência social.
Alto Paraguai: do garimpo à reconstrução

Localizado na região Médio-Norte de Mato Grosso, Alto Paraguai — a 199 km de Cuiabá — tem sua história marcada pela mineração artesanal, atividade que impulsionou a economia local por décadas. Com a proibição do garimpo, o município passou por uma profunda transformação econômica.
Sem a mineração, Alto Paraguai voltou-se para a agricultura familiar, o pequeno comércio e atividades de subsistência, tornando-se um território de baixa renda média e vulnerabilidade social constante. Nesse cenário, políticas públicas de moradia como o Ser Família Habitação têm impacto ainda mais expressivo.
Com cerca de 11 mil habitantes, distribuídos entre zona urbana e comunidades rurais, a chegada de residenciais populares não representa apenas um avanço habitacional: simboliza dignidade e segurança para dezenas de famílias antes vivendo de aluguel, em casas improvisadas ou áreas isoladas.
No dia da entrega das cinquenta unidades, o prefeito de Alto Paraguai, Adair Alves Moreira, destacou a importância do programa e da parceria com o Governo do Estado:
“É um momento de alegria, de gratidão à dona Virgínia e ao governador Mauro Mendes, por permitir a Alto Paraguai fazer esta entrega para cinquenta famílias que talvez passariam a vida toda sem ter um lar para criar os seus filhos. É um programa muito relevante porque permite ao Poder Público ir atrás das pessoas que necessitam e mostrar que elas são importantes, que têm direito e dignidade. É um programa grandioso”, afirmou.
Virgínia Mendes: “O programa é a realização de um sonho”
A primeira-dama Virgínia Mendes entregando a chave para Luana Silva, em Alto Paraguai. Foto: Reprodução Instagram
Durante a entrega das 50 unidades em Alto Paraguai, a primeira-dama Virgínia Mendes comparou o momento à realização de um sonho:
“Eu sou muito grata por poder entregar estas casas a pessoas que precisam muito e não têm condições de financiar uma casa. Agradeço a todos os parceiros e ao governador Mauro Mendes, porque quando eu tive este sonho ele prontamente concordou, abraçou e contribuiu com os recursos para que a gente realizasse. A gente vê o carinho das pessoas, a emoção, porque casa é dignidade.”
Luana Silva, que tem deficiência visual e física, recebeu a casa toda adaptada e vive ao lado da filha. Foto John Olivera
Luana Silva também realizou o sonho da casa própria pelo Ser Família Habitação – Faixa Zero. Dona de casa, com perda de visão, amputação de dedos devido ao diabetes e ainda de luto pela perda recente de uma filha com câncer, ela não conteve a emoção ao receber o novo lar, onde hoje vive com dignidade.
Evair Nascimento de Campos, 59 anos, vivia em um sítio de difícil acesso com o esposo Arnaldo, duas filhas e um filho com deficiência intelectual. A situação se agravou quando ela passou a usar cadeira de rodas por causa de um problema na coluna: “Gastei tudo o que eu tinha”, lembra.
Após longos anos de muita dificuldade,Evair Nascimento com o esposo e o filho que é diagnosticado com deficiência intelectual comemoram a casa própria. Foto John Oliveira
Mudaram-se para a cidade em busca de recursos, mas continuaram em condições precárias, agravadas pela doença de Arnaldo. Ao saber das inscrições para o Ser Família Habitação, Evair buscou toda a documentação.
“Vivemos por muitos anos uma situação muito difícil. Quando saiu que eu e minha filha fomos contempladas, nós duas choramos muito”, conta, emocionada.
Sobre o Programa
Criado em novembro de 2021 pela Lei Estadual nº 11.587, o Ser Família Habitação – Faixa Zero tornou-se uma das principais políticas sociais de Mato Grosso no enfrentamento ao déficit habitacional de famílias de muito baixa renda. O programa oferece apoio financeiro aos municípios para construção de unidades urbanas e fomenta o desenvolvimento local ao movimentar a cadeia da construção civil.
Setenta e três municípios já aderirem ao Programa Ser Família Habitação. Foto Reprodução
Para participar, as famílias precisam atender às regras definidas no Decreto nº 1.398/2022, como estar inscritas no CadÚnico, possuir renda per capita de até R$ 218, residir há pelo menos cinco anos no município e não ter sido beneficiadas por outro programa habitacional de interesse social. A legislação também estabelece prioridades para mulheres chefes de família, idosos, pessoas com deficiência e mulheres vítimas de violência.
Desde sua criação, 73 municípios aderiram ao programa. Ao todo, 11 residenciais foram concluídos, somando 568 casas entregues. Os convênios firmados totalizam R$ 334,6 milhões, e outros seis municípios estão em fase final de adesão, o que deve ampliar os investimentos em mais R$ 38,3 milhões.
A execução ocorre por meio de parcerias diretas entre o Governo do Estado e as prefeituras, responsáveis por fornecer o terreno regularizado, infraestrutura básica e a construção das unidades. A seleção das famílias é conduzida pelos municípios, por meio de edital público, avaliação social e visita domiciliar, com validação final da Setasc.

Compromisso do Governo de MT com a dignidade humana
Para o secretário de Estado de Trabalho, Assistência Social e Cidadania, Klebson Gomes, histórias como a de Idalice ilustram o impacto que o Ser Família Habitação busca alcançar. “Ao priorizar o programa, o Governo de Mato Grosso reafirma o compromisso com a dignidade humana e com a redução do déficit habitacional, oferecendo às famílias vulneráveis muito mais que um imóvel: a chance de reconstruir a própria vida”, contextualiza o gestor.
O secretário destaca que a iniciativa da primeira-dama Virgínia Mendes, com total apoio do governador Mauro Mendes, também movimenta a economia local e promove empregos, garantindo que o investimento público se traduza em melhorias reais no dia a dia das pessoas. “Cada residencial entregue representa não apenas uma obra concluída, mas o início de um novo ciclo para famílias que antes viviam em insegurança habitacional”, pontua.
Klebson enfatiza ainda que nada seria possível sem a parceria direta com as prefeituras, responsáveis por selecionar as famílias, disponibilizar áreas regularizadas e acompanhar as obras.
“Quando Estado e municípios atuam juntos, conseguimos chegar exatamente a quem mais precisa, com eficiência e transparência. É assim que a política habitacional se torna mais forte e capaz de transformar vidas em Mato Grosso”, completa.
