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Doação de Sangue: Gratidão, Vivência e Um Chamado por Reconhecimento

por Da Redacao

Por Indiana Campos Borralho.

Hoje, 14 de junho, celebramos o Dia Mundial do Doador de Sangue. Uma data que me atravessa em profundidade — como profissional da saúde, como educadora, como doadora e, especialmente, como filha.

Meu envolvimento com a hemoterapia começou antes mesmo da minha formação — começou no berço. Desde que nasci, convivo com essa realidade, pois minha tia e madrinha é servidora efetiva do MT-Hemocentro. Cresci participando de festas, campanhas, atualização do parque tecnológico, ouvindo histórias e conhecendo profissionais comprometidos com a vida. Esse ambiente moldou minha visão de mundo. Quando completei 18 anos, tentei doar sangue pela primeira vez, mas fui impedida por hemoglobina e hematócrito baixos — ainda na época do teste do dedo furado. A frustração me marcou, mas o vínculo com a causa estava selado. Só em 2016 consegui realizar a doação, e desde então, sigo firme — doando duas ou três vezes ao ano, mesmo quando a hemoglobina ainda tenta me barrar.

Essa tradição de cuidado e gratidão também se estende à minha família, reconhecida como tradicional em Cuiabá, especialmente por ocasião dos 300 anos da cidade. Foi nesse espírito que criamos a campanha “Cuiabano de Sangue e Coração”, um gesto de retribuição à sociedade que sempre caminhou ao nosso lado — incentivando a doação de sangue de forma comunitária e afetiva.

Ainda durante a graduação em Biomedicina, publiquei meus primeiros artigos científicos sobre o tema. Atualmente, são 11 anos de profissão, e durante três deles realizei um sonho antigo: trabalhar no MT-Hemocentro, referência em hemoterapia no estado de Mato Grosso. Ali, atuei no controle de qualidade de hemocomponentes e na imuno-hematologia, especialmente nos testes pré-transfusionais. Vi de perto a realidade crua e comovente de quem depende do gesto altruísta de um doador — de crianças com doenças hematológicas a idosos em tratamentos complexos. Entendi, no dia a dia, que uma bolsa de sangue pode representar a diferença entre viver e partir.

Hoje, atuo como professora no CETEM e levo essa vivência para dentro da sala de aula. Ensinar sobre hemoterapia não é apenas explicar processos laboratoriais — é formar cidadãos que compreendem o impacto do seu papel na saúde coletiva. E, sim, sigo captando doadores com entusiasmo: colegas, amigos, alunos, vizinhos. Muitos começaram por minha insistência e continuaram por consciência.

Mas 2025 me trouxe uma vivência que transformou tudo. Pela primeira vez, meu pai precisou de transfusão. Meu pai. Meu herói. O sangue que corre hoje nas veias dele é anônimo, mas infinitamente valioso. Saber que uma pessoa, em algum lugar, decidiu doar e salvou a vida de alguém que eu amo, reforçou em mim a certeza de que cada gota importa. A experiência doeu, mas me fortaleceu. reforçando em mim a urgência de falar sobre isso — não como profissional da saúde, mas como filha.

E é por isso que eu escrevo.

A doação de sangue no Brasil, especialmente em Mato Grosso, ainda exige mais do que boa vontade: exige resiliência dos heróis anônimos. A doação é, sim, voluntária e altruísta — e deve continuar sendo. Mas precisamos avançar. Precisamos de políticas públicas que promovam a saúde do doador, ofertem acompanhamento médico, nutricional, psicológico, retorno de exames além dos realizados na triagem do sangue doado, e que criem estímulos reais. Estado retribua com respeito e valorização? O que impede que o poder público promova ações reais de cuidado ao doador? É hora de ir além da campanha pontual.

Por que não estimular parcerias com empresas que prestam serviços amplamente utilizados pela população — como aplicativos de transporte, delivery de alimentos, farmácias e até transporte público — para oferecer benefícios ou descontos aos doadores regulares? Por que não discutir formas de isenção tributária simbólica? Por que não garantir reconhecimento em concursos federais e mais segurança trabalhista, como o abono real de faltas para quem doa?

 

A doação de sangue salva vidas — isso é inegável. Mas reconhecer e valorizar quem doa é garantir que esse ciclo continue ativo, sustentável e humano.

Sonho com políticas públicas de promoção à saúde voltadas ao doador — que vão além dos exames realizados nas bolsas. É preciso garantir o acesso facilitado a exames preventivos, o retorno claro dos resultados, orientação médica qualificada — especialmente para aqueles que, por meio da doação, descobrem condições que os colocam na posição de paciente. Também é fundamental oferecer acompanhamento nutricional e apoio psicológico, porque a saúde do doador é tão importante quanto a de quem recebe o sangue. Cuidar de quem doa é fortalecer toda a cadeia da hemoterapia. Isso não é pagamento. É incentivo. É reconhecimento.

Hoje, agradeço de coração a todos que doam. A você, que estende o braço por alguém que talvez nunca conheça, meu respeito e minha gratidão. A você que divulga, convence, apoia e multiplica, mesmo sem poder doar, meu muito obrigada. O sangue conecta vidas. É ciência, mas também é afeto. É técnica, mas também é esperança.

Que os gestores públicos, legisladores e toda a sociedade abracem essa causa com seriedade e sensibilidade. Investir no serviço de hemoterapia é investir na vida. E reconhecer o doador é reafirmar que a solidariedade salva — literalmente, e sangue só existe com doador.

Enfim… A você, doador, minha eterna gratidão.

A você, doador indireto, que incentiva, compartilha, convida, meu muito obrigada.

Obrigada, doador. Obrigada por ser ponte entre o desespero de uma família e a continuidade de uma vida. Que você nunca falte. Que nunca te faltem respeito e reconhecimento.

Indiana Campos Borralho é biomédica, professora e entusiasta da hemoterapia. Atua na área, com forte envolvimento em captação de doadores, educação em saúde e produção científica. É autora de diversos artigos sobre segurança transfusional, modernização dos processos hemoterápicos e incentivo à doação de sangue.

 

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