Home BrasilProfessor trans conta sobre transição de gênero dentro de comunidade muçulmana: ‘Tirar o lenço foi ponto crucial’

Professor trans conta sobre transição de gênero dentro de comunidade muçulmana: ‘Tirar o lenço foi ponto crucial’

por Da Redacao

Desde o início da transição em 2018, jovem sofreu exclusão familiar e foi agredido por causa da identidade de gênero. Zion Sleiman tem 25 anos, é formado em Direito, professor na UTFPR, em Medianeira, e comemora cada conquista nesse processo de poder mostrar quem sempre foi.

Depois de seguir a tradição como menina e mulher muçulmana por 10 anos com um lenço no rosto, a verdadeira identidade de Zion Sleiman ganhou espaço para ser livre como homem trans.

“Com 10 anos de idade me fizeram colocar o lenço e parecia que alguém tinha me dado um tiro. Eu já não me reconhecia mais dentro da religião muçulmana, mas como era menor de idade, era obrigado a usar. Foi bem difícil ter que usar. Quando completei 20 anos disse que não dava mais e tirei o lenço. Tirar o lenço foi ponto crucial para minha transição”, relembrou.

Zion tem 25 anos, cresceu em uma família islâmica e mora em Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, onde existe a segunda maior comunidade árabe do Brasil, com predomínio de seguidores do islamismo.

Desde criança, os aprendizados sobre o Alcorão e costumes muçulmanos estiveram presentes na vida dele. Em contrapartida, Zion só ouviu sobre identidade de gênero depois da adolescência, durante as terapias, quando de fato começou a entender que desde pequeno se identificava como menino.

O termo transgênero é utilizado para descrever pessoas que não se identificam com o gênero biológico que nasceram (saiba mais sobre termos da comunidade LGBTQIA+ ao final da reportagem).

“Eu tirava a minha roupa e não entendia. Não trazia reconhecimento de quem eu era por dentro. Era uma disputa na minha cabeça de quem eu era de fato e de quem eu me enxergava.”

No ensaio de colação, Zion mostrou o caderno de terapia, com fotos do dia que retificou o nome na certidão de nascimento — Foto: Arquivo pessoal

Agora, formado em Direito, o professor voluntário da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) de Medianeira, no oeste do estado, olha para o passado recente com orgulho do homem trans que se tornou.

“Foram 23 anos de muita ansiedade, de muitos traumas por conta disso. Fui violentado várias vezes, agredido fisicamente e, principalmente, psicologicamente. Quando alguém passa pela transição, não é só a pessoa que transiciona, mas todas as pessoas em torno. Todos meus colegas, em casa, para todos foi um processo. Teve gente que não soube lidar. Teve gente que preferiu se afastar. Tem gente que me vê feliz agora com meu processo de transição, mas para chegar até aqui é difícil e ainda temos muitos entraves para lutar na sociedade.”

Mudanças

Zion contou que nunca quis impor o processo de transição aos familiares, pois compreende que a trajetória não é simples.

Ele sabia que o ato radical de deixar de usar uma vestimenta feminina, como era o caso do lenço, mudaria tudo no meio em que vivia.

“Aqui em Foz do Iguaçu tem muitos árabes. Muitos costumam repudiar qualquer ato contrário à tradição muçulmana. O costume imposto pelo uso do véu é algo que parte mais dos pais autoritários, pois o livro do Alcorão não diz isso, não é obrigatório o uso do véu, na verdade, é algo que a pessoa precisa querer usar, por sentir no coração e em respeito a Deus. A pessoa não deve ser obrigada, como era no meu caso.”

O jovem comemorou o primeiro ano depois de iniciar o processo com hormônios na transição, em Foz do Iguaçu — Foto: Arquivo pessoal

Poder dar espaço ao “pequeno Zion”, como diz o jovem, foi desafiador e reconfortante. Aos poucos, olhar no espelho tornava-se mais agradável.

“A primeira vez que tirei o lenço me senti pelado, foi diferente, uma liberdade. Depois, a primeira vez que usei shorts e uma regata, algo que sempre quis usar desde criança, mas não podia porque estava no gênero feminino e na cultura árabe isso é proibido, pois é algo considerado errado e vulgar, foi libertador.

Não bastasse enfrentar dilemas internos em uma fase cheia de mudanças, Zion disse que depois de tirar o lenço começaram os rumores negativos sobre ele na comunidade árabe.

“Meu pai passou mal na época, não compreendeu o que estava acontecendo. Ali, eu comecei a sentir que viria muita coisa pela frente. Começaram a me levar para vários psicólogos e psiquiatras.”

Zion após a primeira aula como professor da UTFPR, com o tema sobre visibilidade trans — Foto: Arquivo pessoal

Transição

Em meio a tantas vivências, Zion enfrentou a depressão e passou por momentos difíceis em setembro de 2019. Nessa época, ele não imaginava que logo teria na certidão de nascimento o nome com que sonhou por tanto tempo.

Foi em novembro do mesmo ano que o jovem retificou o nome no registro civil. O processo aconteceu durante o programa Justiça do Bairro, onde ele participava como voluntário enquanto era aluno de Direito.

Ao lado de professores e amigos, o documento era a prova de que mais uma etapa tinha sido vencida.

“Foi uma conquista, me senti como uma pessoa renovada. Finalmente estava dando voz para o pequeno Zion, que estava internalizado e que nunca teve espaço para ele.”

A psicóloga Bruna, e a endocrinologista Gracielle acompanharam Zion desde o início da transição e são importantes na trajetória do jovem — Foto: Arquivo pessoal

O próximo passo foi começar a mudar a aparência, para quando ele olhasse o próprio corpo, encontrasse sincronia com aquilo que sentia.

O tratamento com hormônios começou em 2020. Aos poucos, a mudança na voz e no rosto, como a barba, foram aparecendo e se transformando nos novos motivos para Zion sorrir.

“Meu processo foi bem gradual, pude ter essa sensação de estar percebendo e sentindo as mudanças. Cada mudança para mim foi incrível, foi um aconchego que aquece o nosso coração. Podia ver aquele ‘piazão’ colocando tudo para fora, se expressando.”

Agora, Zion deseja fazer a cirurgia de mamoplastia masculinizadora, que é feita para a retirada total dos seios.

Ele explica que ver as mamas afeta o psicológico e, por isso, utiliza uma faixa que comprime os seios para parecer ter um peitoral masculino.

Entretanto, segundo Zion, a faixa aperta muito e causa problemas de respiração, fadiga, indisposição e dores nas costas, o que atrapalha as atividades dele no dia a dia.

Apoio da amiga Luisa foi essencial durante todo período de transição — Foto: Arquivo pessoal

A cirurgia custa cerca de R$ 21 mil e, por isso, ele fez uma vaquinha online para arrecadar dinheiro e realizar mais uma fase do processo de transição.

“Eu só quero ter a segurança e a liberdade de respirar fundo, sem nada me prendendo o tempo inteiro. Quero poder vestir uma blusa sem ter uma crise de ansiedade, quero olhar para o espelho e me sentir bem comigo mesmo.”

Religião

O professor contou que a família sempre o viu como uma criança problemática ou rebelde, por isso, ele foi morar com os avós no Líbano quando era mais novo.

Os pais dele achavam que com uma educação mais rígida, ele voltaria diferente para o Brasil. Só agora Zion vê sentido em tudo aquilo que lhe incomodava quando era criança.

Depois de começar a transição, o jovem saiu de casa duas vezes, pois a família não o aceitava como era.

Atualmente, ele mora com o pai e, por isso, participa de algumas tradições da comunidade muçulmana em que se sente confortável.

“Não sigo a religião muçulmana em si mais, porém, continuo vivendo vários costumes árabes que gosto e não vejo problema nisso. Eu fui criado nessa cultura e religião e não preciso abrir mão dos costumes árabes por conta da minha transição. Fizeram parte e fazem parte da minha história. Só aprendi a ressignificar”, explicou.

Mesquita Omar Ibn Al-Khatab, em Foz do Iguaçu — Foto: Fabiula Wurmeister / G1

Sobre a falta de respeito e preconceito com as pessoas trans, o jovem entende que o problema não vem das religiões, mas das pessoas.

“Acho que nem é pela religião em si, mas sim uma cultura que está enraizada na grande parte das pessoas religiosas, que usa da religião como forma de destilar ódio e preconceitos contra pessoas LGBTI+, em específico pessoas trans.”

O professor contou ainda que se afastou totalmente da religião muçulmana durante a transição por causa de situações preconceituosas.

Me sugeriram uma ‘intervenção de reversão’ no Líbano de dois anos, o que para mim seria apenas uma tortura. Eu como cidadão brasileiro recusei e não me dispus a isso e me afastei. Respeito a liberdade religiosa desde que respeitem a minha individualidade.”

Acolhimento

Segundo o professor, ninguém da família o apoiou durante o período de transição. Mas ele teve ombros amigos ao lado da psicóloga Bruna, a endocrinologista Gracielle e a amiga Luisa.

Aos poucos, Zion tem percebido uma maior aproximação do pai e um olhar diferente de alguns familiares após a colação de grau dele, que aconteceu em 2021.

“Ter apoio na transição faz toda diferença. Dados de pesquisas mostram que pessoas trans têm maior tendência ao suicídio, pois são as que menos têm acolhimento familiar. “

O jovem professor é o único homem trans que leciona no campus da UTFPR, em Medianeira, segundo a direção. Procurada pelo G1, a universidade não soube informar se outras pessoas trans atuam no corpo docente da instituição.

Recém-formado, Zion espera seguir a carreira acadêmica, mas as oportunidades ainda estão em aberto.

A única certeza no momento é de que ele continuará lutando pelos direitos humanos.

“Tive que me esconder por anos. Só agora sinto liberdade de me expressar e não vou parar”, disse.

Termos da comunidade LGBTQIA+

A sigla LGBTQIA+ reúne alguns termos para orientações sexuais, que se trata sobre quem a pessoa se sente atraída, e para identidades de gênero, que diz respeito sobre como a pessoa se identifica. Veja abaixo o que cada letra significa e outros termos.

O universo da população LGBTQIA+ é amplo e não pode ser limitado em termos, mas eles são importantes para a luta por políticas públicas e para a disseminação de informação, uma vez que o desconhecimento pode ser um fator para o preconceito, segundo integrantes da comunidade.

Termos da comunidade LGBTQIA+

Lésbica É uma orientação sexual que diz respeito a mulheres (cisgênero ou transgênero) que se sentem atraídas por outra mulher (cis ou trans).
Gay É uma orientação sexual que diz respeito a homens (cisgênero ou transgênero) que se sentem atraídos por outros homens (cis ou trans).
Bissexuais Bissexualidade é uma orientação sexual que diz respeito a pessoas que se atraem ou relacionam, afetivamente e/ou sexualmente, com homens e mulheres (cis ou trans)
Transexuais ou travestis A pessoa transexual possui uma identidade de gênero diferente do sexo designado no nascimento. A travesti faz parte de uma construção de gênero feminino, oposta ao sexo biológico, seguido de uma construção física de caráter permanente, que se identifica na vida social, familiar, cultural e interpessoal, através dessa identidade.
Queer Um adjetivo utilizado por algumas pessoas, em especial as mais jovens, cuja orientação sexual não é exclusivamente heterossexual.
Intersexo A intersexualidade descreve pessoas que podem nascer com genitais correspondentes a um sexo, mas ter hormônios e sistema reprodutivo de outro. Também podem apresentar anatomia sexual que não é nem masculina e nem feminina.
Assexual Assessuais são as pessoas que não sentem atração sexual por ninguém, o que não significa que não possam ter sentimentos afetivos por outras pessoas.
‘+’ (na sigla LGBTQIA) Demais orientações sexuais e identidades de gênero.
Pansexual Pansexualidade é uma orientação sexual que recusa a ideia de dois gêneros, isso significa que podem se atrair físicamente, amorosamente e ter desejo sexual por outras pessoas, independentemente da identidade de gênero ou sexo biológico do outro.
Não-binário Pessoa que não se sente em conformidade com o sistema binário homem/mulher.

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