Home Variedades‘Nomadland’: livro que inspirou filme mostra que nômades estão em fuga de distopia, não a passeio

‘Nomadland’: livro que inspirou filme mostra que nômades estão em fuga de distopia, não a passeio

por Da Redacao

Reportagem que inspirou filme levou 3 anos e mostra que nômades indicam futuro sombrio com trabalho precário sem aposentadoria. Leitura ajuda a entender angústia e solidariedade deles.

No livro “Nomadland”, o “nômade” Bob Wells fala do dia em que se viu sem casa nem aposentadoria, após trabalhar a vida toda. Ele comparou a sensação à de estar no filme “Matrix” e descobrir que “o mundo agradável e previsível que ele habitava era uma miragem, que escondia uma distopia brutal.”

Ele acabou aparecendo mesmo em outro filme, mas não de ficção científica. “Nomadland”, longa inspirado no livro-reportagem sobre idosos que vivem em automóveis nos EUA, tem a atriz Frances McDormand ao lado de não-atores que interpretam a si mesmos, como Bob Wells.

O filme indicado a seis Oscars dirigido pela chinesa Chloé Zao foi lançado nos cinemas do Brasil no dia 15 de abril. O livro da jornalista Jessica Bruder, publicado nos EUA em 2017, vai sair no país pela editora Rocco, ainda no primeiro semestre de 2021, mas sem data confirmada.

O longa mostra a rede de solidariedade que estes nômades criaram ao deixar suas casas em busca de trabalhos temporários e encontros com novos amigos na estrada. O livro deixa mais claro que eles não estão ali a passeio. A situação deles indica o fim da aposentadoria para boa parte dos americanos.

O origem dos nômades

Robert Wells, que todos chamam de Bob, interpreta ele mesmo em Nomadland — Foto: Getty Images via BBC

Robert Wells, que todos chamam de Bob, interpreta ele mesmo em Nomadland — Foto: Getty Images via BBC

Os EUA têm um sistema de Seguridade Social que dá uma aposentadoria mensal modesta (cerca de US$ 500 para Linda May, por exemplo) e conta com previdência privada como complemento – que quase ninguém tem. Muitos têm que escolher entre comer, ir ao médico ou ter uma casa.

Com a crise de 2008, cresceu o número de pessoas se arrisca na parte da casa e vai viver em automóveis. Esse tipo de veículo nos EUA é relativamente acessível, assim como a cultura de adaptações e truques para viver na estrada. Mas eles estão lá mais por falta de opção do que por escolha.

A personagem principal do filme, a ficcional Fern, cai na estrada após perder o emprego e sua cidade simplesmente desaparecer do mapa, com a desativação de uma grande fábrica. As outras histórias do livro são mais mundanas, mas igualmente tristes – demissão, divórcio, dívidas e perda de hipotecas.

Idosos explorados

Frances McDormand (Fern) e os nômades da vida real de 'Nomadland' — Foto: Divulgação

Frances McDormand (Fern) e os nômades da vida real de ‘Nomadland’ — Foto: Divulgação

Outra história impressionante da reportagem de Jessica Bruder é de como a precarização do trabalho se aproveita desses idosos. Há relatos de pessoas de mais de oitenta anos trabalhando em galpões da Amazon e inúmeros casos de idosos extenuados, maltratados e feridos neste e em outros trabalhos.

A Amazon oferece analgésicos nos galpões para estes idosos, que ela recruta diretamente em um programa chamado CampForce. Um deles diz a Jessica no livro que um bom dia de trabalho é quando ele tem que tomar só dois comprimidos de analgésico depois.

Para conhecer essa vida real, Jessica pesquisou por três anos e até trabalhou na Amazon e em uma indústria de processamento de beterrabas – onde alguns trabalhadores ficam seriamente feridos por legumes gigantes que caem neles.

Ela também encontra “nômades” mais jovens, sufocados por dívidas estudantis, e que dizem se antecipar a um prospecto sombrio de não ter dinheiro para morar, muito menos para descansar.

Idosos adolescentes

Mas o livro não é só de denúncia. Os personagens que Jessica acompanha profundamente, como Linda e Bob, são tão cativantes quanto parecem na tela em “Nomadland”. Eles transformam a vida nos automóveis em uma negação do capitalismo que os expeliu, e se juntam numa comunidade vibrante.

Jessica tem talento para conversar com os personagens e encontrar uma luz neles – Linda, por exemplo, tem um sonho peculiar de achar um terreno e construir uma casa só com materiais reciclados. Ao abandonar o ideal da classe média, eles recuperam uma aura adolescente e hippie.

Eles se ajudam na montagem dos veículos, a encontrar os trabalhos temporários, a aguentar os abusos desses trabalhos, a fazer encontros em momentos de lazer, a trocar relatos sobre as viagens em blogs e comunidades online, a criar um sentido e a amar aquela vida na estrada.

Por caminhos diferentes – o livro com uma investigação e relato minuciosos de Jessica Bruder; o filme com as cenas sintéticas e imagens evocativas de Chloé Zao – ambos traçam esse cenário de carinho em meio a um desastre do capitalismo.

O livro começa, aliás, com a citação de “Anthem”, música do canadense Leonard Cohen, que também sintetiza bem esse cenário: “Há uma rachadura em todas as coisas / É assim que a luz entra”.

Fonte: Gshow

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