Home BrasilDefensoria denuncia governo de SP a órgão internacional por superlotação e racionamento de água em presídios na pandemia

Defensoria denuncia governo de SP a órgão internacional por superlotação e racionamento de água em presídios na pandemia

por Da Redacao

Relatório à Comissão Interamericana de Direitos Humanos aponta que 86% dos presídios vistoriados racionam água e 93% estão superlotados. Detentos relatam ter água disponível por 1 a 2 horas por dia mas governo de SP nega. SAP diz que acusações não procedem e que fornece remédios e produtos de higiene adequados.

A Defensoria Pública denunciou o estado de São Paulo à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) por “dezenas de violações de direitos constatadas em inspeções feitas em unidades prisionais durante a pandemia da Covid-19″. O objetivo é que a comissão, que é órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA), reconheça que os direitos dos presos estão sendo desrespeitados no estado e que imponha uma garantia para que isso mude.

Os relatórios, feitos após inspeções surpresa em 21 presídios pelos defensores, aos quais o G1 teve acesso, mostram que 85,71% das unidades prisionais fiscalizadas no estado durante a pandemia racionam água, sendo que, em algumas delas, o uso de água só é liberado por uma a duas horas por dia.

Com base nos relatórios, feitos após vistorias e relatórios feitos em 14 das 21 unidades prisionais inspecionadas entre 22 de junho de 2020 e 3 de março de 2021, a Defensoria Pública pediu ainda à CIDH a realização de uma audiência pública temática, que reuniria especialistas de toda a América Latina para discutir o tema.

O documento ainda será analisado e processado pela Comissão, que deverá avaliar se aceita a denúncia e a proposta de audiência e pedirá explicações ao governo de São Paulo e ao Brasil sobre o caso.

Superlotação

Os documentos apontam que, desde 2014, 70% das unidades carcerárias estão superlotadas no estado. Dentre as 21 inspecionadas durante a pandemia, o número de superlotadas chegou a 93%, sendo que algumas delas estão com mais que o dobro de detentos do que a capacidade.

Também foram recebidos diversos relatos de celas, que possuem em média de 6 metros quadrados, conforme a lei brasileira, comportando 40 detentos e 12 camas, que são revezadas. Em alguns casos, espumas finas são utilizadas como “colchões” para dormir, disseram os presos.

Segundo os defensores, a aglomeração dos detentos e a falta de equipamentos básicos de higiene e saúde, e a falta de água, que permitiria a lavagem das mãos e a limpeza frequente, facilita a propagação da Covid nos presídios.

“Das 14 unidades inspecionadas durante a pandemia, 92,8% estavam superlotadas. O único estabelecimento que não estava com sua capacidade máxima, era a Prisão Feminina da Capital. A unidade com menor taxa de superlotação tinha 121,8% de ocupação e a com maior nível de ocupação, apresentava 230,5% de taxa de superlotação. A maior parte das unidades inspecionadas, 7 delas, tinham taxa de superlotação maior que 150% e parte considerável (4) tinham taxa de superlotação de mais de 200%”, escreveram os defensores na denúncia.

Segundo ela, foi “esse contexto de omissão do Estado”, de “todos os Poderes”, que “esse apelo à Comissão Interamericana de Direitos Humanos se faz necessário para tentar garantir pelo menos um mínimo de dignidade às pessoas presas”.

Sobre a superlotação, a SAP afirmou que “já foram entregues, desde o início da gestão, sete presídios, sendo cinco em 2019 e dois em 2020 e outros 6 serão entregues em 2021” e que o governo vem adotando medidas paralelas para oferecer “ao Judiciário opções ao encarceramento”.

40 presos para 12 camas na Capital

Um dos presídios com maior superlotação é o Centro de Detenção Provisória II de Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo. Com capacidade para 793 pessoas, abrigava 1.625 quando vistoriado pela Defensoria em agosto de 2020 – mais de 204% da capacidade.

“Em boa parte das celas, vivem cerca de 40 pessoas onde só há 12 camas”, diz o relatório do presídio. “Não há, por isso, camas para todas as pessoas, e o espaço para a colocação de colchões é insuficiente, havendo necessidade de 2 ou mais pessoas presas dividirem o mesmo colchão”, escreveram os agentes.

Sobre uma cela de seguro, onde ficavam detentos sob risco, havia 12 pessoas e 9 colchões. “O local, além de mal iluminado (a luz artificial externa chega apenas na entrada da cela), cheirava mal”, diz o relatório.

Antes da inspeção, o CDP de Pinheiros passou por uma testagem de Covid-19 feita por meio de teste rápido. Na ocasião, 816 detentos da unidade (50% da população carcerária) testaram positivo para a doença.

“Antes da realização de testes em massa, não havia sido detectado nenhum caso de Covid-19 na unidade, apesar de, segundo a direção, realizarem semanalmente medição de temperatura e questionário sobre sintomas em relação a todas as pessoas presas na unidade, o que continuaria até a data da inspeção”, afirmaram os defensores após a inspeção.

A Defensoria diz que o racionamento de água no CDP de Pinheiros já existia em 2014, quando havia sido realizada a última visita à unidade, mas que a situação “piorou”.

Celas de presos em SP — Foto: Reprodução

Saúde e higiene

Quanto aos itens de higiene, diz a denúncia da Defensoria, 69% dos detentos relataram que não recebem itens quando precisam – há presídios em que um sabonete é dividido por sete detentos no banheiro e são entregues apenas 4 rolos de papel higiênico por mês a uma cela com 40 homens.

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