Pular para o conteúdo
Variedades

'Nomadland': livro que inspirou filme mostra que nômades estão em fuga de distopia, não a passeio

Da Redacao 4 min de leitura
Compartilhe WhatsApp Facebook X

No livro "Nomadland", o "nômade" Bob Wells fala do dia em que se viu sem casa nem aposentadoria, após trabalhar a vida toda. Ele comparou a sensação à de estar no filme "Matrix" e descobrir que "o mundo agradável e previsível que ele habitava era uma miragem, que escondia uma distopia brutal."




Ele acabou aparecendo mesmo em outro filme, mas não de ficção científica. "Nomadland", longa inspirado no livro-reportagem sobre idosos que vivem em automóveis nos EUA, tem a atriz Frances McDormand ao lado de não-atores que interpretam a si mesmos, como Bob Wells.



O filme indicado a seis Oscars dirigido pela chinesa Chloé Zao foi lançado nos cinemas do Brasil no dia 15 de abril. O livro da jornalista Jessica Bruder, publicado nos EUA em 2017, vai sair no país pela editora Rocco, ainda no primeiro semestre de 2021, mas sem data confirmada.

Anuncie aqui Sua marca para todo o Médio Norte 300 × 250 px Quero anunciar


O longa mostra a rede de solidariedade que estes nômades criaram ao deixar suas casas em busca de trabalhos temporários e encontros com novos amigos na estrada. O livro deixa mais claro que eles não estão ali a passeio. A situação deles indica o fim da aposentadoria para boa parte dos americanos.

O origem dos nômades

Robert Wells, que todos chamam de Bob, interpreta ele mesmo em Nomadland — Foto: Getty Images via BBC Robert Wells, que todos chamam de Bob, interpreta ele mesmo em Nomadland — Foto: Getty Images via BBC






Os EUA têm um sistema de Seguridade Social que dá uma aposentadoria mensal modesta (cerca de US$ 500 para Linda May, por exemplo) e conta com previdência privada como complemento - que quase ninguém tem. Muitos têm que escolher entre comer, ir ao médico ou ter uma casa.



Com a crise de 2008, cresceu o número de pessoas se arrisca na parte da casa e vai viver em automóveis. Esse tipo de veículo nos EUA é relativamente acessível, assim como a cultura de adaptações e truques para viver na estrada. Mas eles estão lá mais por falta de opção do que por escolha.



A personagem principal do filme, a ficcional Fern, cai na estrada após perder o emprego e sua cidade simplesmente desaparecer do mapa, com a desativação de uma grande fábrica. As outras histórias do livro são mais mundanas, mas igualmente tristes - demissão, divórcio, dívidas e perda de hipotecas.




Idosos explorados







Frances McDormand (Fern) e os nômades da vida real de 'Nomadland' — Foto: Divulgação Frances McDormand (Fern) e os nômades da vida real de 'Nomadland' — Foto: Divulgação






Outra história impressionante da reportagem de Jessica Bruder é de como a precarização do trabalho se aproveita desses idosos. Há relatos de pessoas de mais de oitenta anos trabalhando em galpões da Amazon e inúmeros casos de idosos extenuados, maltratados e feridos neste e em outros trabalhos.



A Amazon oferece analgésicos nos galpões para estes idosos, que ela recruta diretamente em um programa chamado CampForce. Um deles diz a Jessica no livro que um bom dia de trabalho é quando ele tem que tomar só dois comprimidos de analgésico depois.



Para conhecer essa vida real, Jessica pesquisou por três anos e até trabalhou na Amazon e em uma indústria de processamento de beterrabas - onde alguns trabalhadores ficam seriamente feridos por legumes gigantes que caem neles.



Ela também encontra "nômades" mais jovens, sufocados por dívidas estudantis, e que dizem se antecipar a um prospecto sombrio de não ter dinheiro para morar, muito menos para descansar.




Idosos adolescentes





Mas o livro não é só de denúncia. Os personagens que Jessica acompanha profundamente, como Linda e Bob, são tão cativantes quanto parecem na tela em "Nomadland". Eles transformam a vida nos automóveis em uma negação do capitalismo que os expeliu, e se juntam numa comunidade vibrante.



Jessica tem talento para conversar com os personagens e encontrar uma luz neles - Linda, por exemplo, tem um sonho peculiar de achar um terreno e construir uma casa só com materiais reciclados. Ao abandonar o ideal da classe média, eles recuperam uma aura adolescente e hippie.



Eles se ajudam na montagem dos veículos, a encontrar os trabalhos temporários, a aguentar os abusos desses trabalhos, a fazer encontros em momentos de lazer, a trocar relatos sobre as viagens em blogs e comunidades online, a criar um sentido e a amar aquela vida na estrada.



Por caminhos diferentes - o livro com uma investigação e relato minuciosos de Jessica Bruder; o filme com as cenas sintéticas e imagens evocativas de Chloé Zao - ambos traçam esse cenário de carinho em meio a um desastre do capitalismo.



O livro começa, aliás, com a citação de "Anthem", música do canadense Leonard Cohen, que também sintetiza bem esse cenário: "Há uma rachadura em todas as coisas / É assim que a luz entra".


Fonte: Gshow



Gostou? Compartilhe com quem precisa saber.

Compartilhe WhatsApp Facebook X

Continue lendo

Leia também

Participe

Viu algo que precisa virar notícia?

Mande sua denúncia, foto ou vídeo para a redação do Médio Norte MT. Seu nome é preservado quando você pedir.