Home MundoPaíses em conflito e ditaduras constroem realidade paralela na Expo 2020

Países em conflito e ditaduras constroem realidade paralela na Expo 2020

por Sandra Carvalho

Belarus, Líbano, Somália e Etiópia estão entre os que exibem cenário desconectado do cotidiano

Na Belarus, o consumo e a produção de chocolates não param de crescer. No Líbano, há oportunidades de trabalho para os jovens. A Somália é um campo aberto para investimentos na pesca, aproveitando sua imensa costa. Mianmar é uma sociedade diversa, em que minorias convivem de forma harmoniosa.

É desta forma que diversos países que costumam frequentar o noticiário de forma negativa se apresentam na Expo 2020, exposição internacional aberta em outubro em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, com término previsto para março do ano que vem.

Na semana passada, o evento recebeu a visita do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Realizadas a cada cinco anos, as Expos são grandes feiras em que os países competem pela atenção do público em pavilhões, frequentemente com uso de tecnologia e efeitos visuais. A de 2020 foi adiada em um ano devido à pandemia de coronavírus, mas manteve o nome original.

No centro de seu pavilhão, uma impressora 4D desenvolvida pela Academia de Ciências da Belarus ocupa lugar de destaque, podendo produzir materiais que vão de chips a próteses. Telões convidam o turista a visitar o país do leste europeu, apresentando paisagens bucólicas de florestas. “Olá, sou um bisão, um dos símbolos da Belarus”, diz uma mensagem ao lado de uma imagem do animal, logo na entrada do espaço.

Não há qualquer traço de referência ao ambiente tumultuado que vive o país desde a reeleição do ditador em agosto do ano passado, considerada fraudulenta pela União Europeia. Pelo contrário, o estande apregoa que é possível importar equipamento do bloco europeu sem pagar imposto, o que possibilitaria o crescimento de indústrias como a alimentícia, com especial destaque para laticínios e chocolate.

O país árabe vive situação calamitosa, agravada pela Covid e pela explosão no porto de Beirute, em 2020, que levaram a protestos e instabilidade política. Em junho, o Banco Mundial afirmou que a perda de poder da moeda local pode levar o país a viver uma das três piores crises desde a metade do século 19.

Numa área dedicada às oportunidades de investimentos, propagandeia-se que reformas vêm sendo feitas desde que o governo civil e democrático assumiu o poder, em 2011. Mas não há palavra sobre o fato de que esse mesmo governo foi derrubado neste ano.

Entidades internacionais temem uma catástrofe humanitária em razão do conflito, que opõe o governo central e os rebeldes da região do Tigré, no norte do país. Segundo o Programa Alimentar da ONU, mais de 5 milhões de pessoas estão sob risco iminente de fome.

Na Expo, o país prefere exaltar suas belezas e sua rica tradição cultural. Uma mulher serve café, bebida típica local, aos visitantes. Imagens da igreja ortodoxa etíope e uma réplica do esqueleto Lucy, encontrado no país e um dos mais importantes fósseis humanos já localizados, também são apresentados.

Também na África, a Somália, que há 30 anos não tem um Estado que funcione, convida os visitantes a ganhar dinheiro apostando no país. “Bem-vindo à Somália: destravando oportunidades”, diz um painel.

Uma dessas oportunidades apresentadas está no setor da pesca, com o potencial de produção de 200 mil toneladas de peixe por ano. Seriam investimentos de altíssimo risco, no entanto, dado que a costa do país é coalhada de piratas.

Na América Latina, ditaduras de esquerda aproveitaram o espaço para fazer proselitismo de seus regimes.

Nicarágua colocou uma bandeira da Frente Sandinista de Libertação Nacional, partido do ditador Daniel Ortega, no meio de uma exibição que conta com produtos de artesanato típico, como imagens de papagaios de madeira. Cartazes exaltam Augusto Sandino, herói nacional, apresentado como “lutador da soberania nacional contra o intervencionismo americano”.

Já no espaço destinado à Venezuela, exalta-se a figura de Simón Bolívar, símbolo do regime chavista.

Um dos poucos países que abriram mão de vender seu peixe foi a Coreia do Norte, um dos regimes mais isolados do mundo. A lista de excluídos da Expo por pouco não teve também o Afeganistão.

Mas o país asiático, cujo governo foi recentemente derrubado pelo Talibã, se faz presente graças à ação de um empresário exilado na Áustria. “Regimes vão e vêm, mas o país e o povo continuam”, diz Rahime Mohammed Omer, 63. O pavilhão vinha sendo montado pelo antigo governo afegão, até que a exibição foi suspensa a partir de agosto, em razão da tomada do poder pelo grupo fundamentalista.

Como esperado, em nenhum lugar há referência ao Talibã. “É importante o Afeganistão participar da Expo. Eu não podia aceitar que não estivéssemos aqui”, diz Omer.

Fonte: Folha de São Paulo

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