Home JustiçaDefensoria Pública consegue alvará na Justiça para garantir que criança autista viajasse sem máscara

Defensoria Pública consegue alvará na Justiça para garantir que criança autista viajasse sem máscara

por Da Redacao

L., cinco anos, e sua mãe foram retirados do avião, depois do embarque, mesmo após ela mostrar laudo indicando autismo do filho e com lei garantindo o direito dele não usar máscara

A Defensoria Pública de Mato Grosso teve que acionar a Justiça, em situação de urgência, para garantir o direito de ir e vir, sem o uso de máscara, a uma criança autista. O fato ocorreu na madrugada de terça-feira (11/5), quando a criança e sua mãe, a assessora Natália Soares, foram retiradas de uma aeronave, após o embarque, no aeroporto Marechal Rondon.

A ilegalidade ocorreu mesmo após a mãe apresentar laudo médico com o diagnóstico de autismo para L. L. S. A., cinco anos, e depois dela ser questionada sobre o porquê da criança não usar uma máscara. Natália esperou um posicionamento da companhia aérea, no pátio, e ali foi informada que só poderia embarcar novamente na madrugada do dia seguinte, com a apresentação de uma autorização judicial.

A assessora queria voltar para a cidade de Pinheiro, no Maranhão, passando pelo aeroporto de São Luiz, e se viu sem outra saída que não a de adiar a sua partida e buscar seus direitos.

A defensora pública da Vara da Infância e Adolescência de Várzea Grande, responsável pelo caso, Cleide Regina Nascimento, explica que a Lei 14.019/2020, que estabelece o uso de máscaras para circulação em espaços públicos e privados de acesso ao público no país, dispensa o uso do objeto para autistas, deficientes intelectuais, deficientes sensoriais ou quaisquer outras deficiências que impeçam o uso adequado da proteção.

“O que aconteceu a essa família foi um absurdo, uma violência praticada por desconhecimento das regras legais vigentes no país desde junho do ano passado. E diante de todo o problema, o que fizemos foi agilizar a autorização, o mais rápido possível, para que eles embarcassem”, afirmou a defensora.

Um alvará judicial garantindo o direito legal de Natália e o filho viajarem, ele sem máscara, foi assinado pelo juiz da Vara Especializada da Infância e Juventude de Várzea Grande, Carlos José Rondon Luz, ainda na terça-feira, o que garantiu o embarque de ambos na madrugada de quarta-feira (12/5).

Especiais – A presidente da Associação dos Amigos dos Autistas de Mato Grosso, Kelly Viegas, define o que ocorreu com Natália e seu filho como algo “revoltante”. “Imagine o constrangimento dessa mãe e mesmo o desespero, pois com uma criança autista tudo deve ser conversado meses, semanas, dias antes, para prepará-los. Preparamos os nossos filhos para viver uma situação fora da rotina e de repente, ocorre um tumulto? Isso pode desencadear surtos e situações perigosas para eles”, avalia.

Kelly afirma que os autistas foram liberados de usar máscaras legalmente por terem a sensibilidade auditiva, tátil, e de todos os outros sentidos, muito mais aguçada que das pessoas normais. “Tem criança que fica incomodada com o barulho e isso as faz sentir uma espécie de dor, que pode fazer com que tenham crises e fiquem difíceis de conter. É como se vivessem uma explosão de sentimentos, raiva, frustração, tristeza, tudo”.

Ela afirma que para os pais é constrangedor atrair todos os olhares, estressante, cansativo e em alguns casos, perigoso. “Com uma criança autista é tudo mais difícil, temos que criar memórias do que vão viver, por meio de imagens, histórias e avisos. E mesmo assim, nos sentimos muito inseguras em sair com eles, pois além disso, ainda temos medo do vírus. É muita pressão. Conhecer a lei ou se dispor a conversar sobre ela, é o mínimo que as pessoas podem fazer por nós”, disse.

Kelly afirma que esse é o primeiro caso extremo de limitação de um direito relacionado a uma criança autista, pois as reclamações mais comuns que chegam até ela são de pais impedidos de entrar com os filhos sem máscara em mercados, padarias, clínicas e outros locais de circulação de públicos, cujos responsáveis temem ser multados.

“O que podemos fazer é conversar e divulgar a lei e vamos tentar reforçar isso. Conversando, mostrando a lei, nos casos anteriores sempre deu certo. Esse é o primeiro que a conversa não foi o suficiente. Sempre orientamos os pais a andarem com a lei também, pois a maioria a ignora”.

Até as 18h40 de quarta-feira (12/5), Natália e seu filho continuavam a viagem a caminho de casa, na cidade de Pinheiro.

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